BRASILIDADE!

Por Rock Zanella


“A coisa mais importante para os brasileiros

é inventar o Brasil que nós queremos!”



Com a sentença preciosa do maior antropólogo brasileiro, Darcy Ribeiro, iniciamos o nosso bate-papo sobre a Brasilidade e as suas tendências no decor mundo afora.

Nem sempre fomos tão valorizados quanto deveríamos dentro do mercado da decoração, mas desde Carmen Miranda a Zé Carioca, passando pelos calçadões de Copacabana e pelos paisagismos de Burlle Marx e Lota de Macedo Soares, nós estampamos o design nacional e internacional de forma sui-generis e pontual.


Jardim projetado por Burle Marx


Mas dentre plantas exóticas, flores tropicais, telhas de barro, espaços abertos, cobogós, artesanatos regionais e Romero Brito em Miami, quais as heranças que compõem o nosso inventário de Design Brasileiro?

Precisamos olhar para o passado e entender tais heranças para nos empoderarmos do presente e projetar o futuro com brasilidade e muito bom gosto.


BRASIL COM “S”


Parafraseando a cantora Rita Lee, o “Brasil com S” começa pelo legado da nossa cultura indígena com os elementos como a palha de suas ocas arquitetônicas e os seus cocares e animais de estimação como macacos, papagaios, araras, tucanos.


As exuberantes florestas tropicais como as das reservas da Mata Atlântica e da Amazônia enxeram as nossas casas desde o tempo do Império com ornamentais plantas exóticas como Samambaias, costela de Adão, Trepadeiras e muitas outras. As casas de barro e de tábua trouxeram também elementos naturais bastante originais que eram usados pelos ribeirinhos, pelo caipira do interior e pelo imigrante europeu tanto alemão quanto italiano que vieram desbravar o nosso continente.


Casa de barro e madeira


O mameluco, o bugre, o cafuso e o mestiço que surgiram do encontro dos negros e ameríndios com o europeu deram origem ao artesanato feito do barro e da cerâmica, peças entalhadas na madeira que serviam tanto para a decoração de suas casas quanto como utensílios de caça.



O vaqueiro do Pantanal e o gaúcho do Rio Grande do Sul trabalharam o couro em seus ornamentos. Mas foi com chegada das primeiras caravelas e da Família Imperial de Portugal que o “Design” e a “arquitetura brasileira” começam a sofrer influências díspares – deixamos de ser autoctonamente brasileiros para europeizar a nossa cultura.


Célebre a chegada das caravelas com os europeus tomados pelos piolhos e cabeças raspadas protegidas por uma túnica de pano branco – abrasileiramos e cobrimos as nossas cabeças no Rio de Janeiro da época por copiar a “moda do design” que acabava de chegar entre nós. Carlota Joaquina (a nossa primeira princesa) virou a musa do movimento da “cabeça raspada”. Costumes outros vieram da França com as suas rendas e babados que invadiram os nossos cabarés, junto de veludos vermelhos e móveis de capitonê em seus salões. Da França vieram também os belíssimos vitrais que invadiram as nossas igrejas.



A Escola Italiana espalhou a sua arquitetura país afora com a chegada do neoclassico e do tijolo vermelho (vide Ramos de Azevedo com os prédios do Theatro Municipal, o Palácio dos Correios e o Mercado Municipal na cidade de São Paulo).


Emblemático Teatro Municipal de São Paulo, em estilo neoclássico


Os japoneses trouxeram os seus bonçais, Ikebanas, origamis junto de esculturas e ornamentos petrificados na alta temperatura do forno com suas cerâmicas e porcelanas riquíssimas. As esculturas ganharam grandeza na arte da artista oriental Tomie Ohtake.


Obra de Tomie Ohtake


MEU BRASIL BRASILEIRO


Evoluímos junto das nossas tradições, adotamos como nossos valores trazidos de outros povos e copiamos para aprender e absorver com culturas milenares.


Durante muito tempo, a europeização reinante ditou o design e a arquitetura brasileiros. Éramos educados para valorizar “o que vinha de fora” e assim durante anos tomamos como nosso o “bege” e o “jacquard” enquanto padrões absolutos das famílias ricas. Renegávamos as cores vibrantes e os elementos naturais típicos das culturas latinas. Na metade do século XX, enquanto França, Itália e Grécia dominavam as nossas casas com os seus motivos mediterrâneos, muros brancos e afrescos elaborados, uma brasileira era projetada na America para vender os “valores nacionais”. Carmem Miranda, com a política de aproximação do governo de Getúlio Vargas com os EUA, invade os Estados Unidos de brasilidade ao lado do lendário Zé Carioca (então assinado pelos Studios Disney). Nova York e todos os seus Yankis veste-se de turbantes coloridos, balangandãs, samba e pandeiros, camisa listrada e papagaios de cores deslumbrantes.



O Brasil começa a “ditar moda” fora de casa para no futuro começar a ser respeitado dentro do seu próprio território. A projeção e inauguração da cidade de Brasília (DF), no Governo JK, e o surgimento de arquitetos como Oscar Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha, Lina Bo Bardi, Aurelio Martinez Flores e Isay Weinfeld elevam a arquitetura brasileira ao nível internacional com elementos reconhecidamente nacionais.


Projeto do SESC Pompéia, por Lina Bo Bardi


A movelaria também seria afetada pelo surgimento de novas ideias nas mãos de gênios como Carlos Motta. Abaixo dos trópicos, nós caminhamos em direção à nossa identidade e maioridade com o surgimento da primeira revista de decoração do país – Casa Claudia, idealizada pela inesquecível jornalista e arquiteta Olga Krell.


Poltrona de Carlos Motta


Esta publicação incita o Brasil a um salto astronômico para a evolução do Design e da Arquitetura nacional, destacando nomes da decoração com casas que marcam a nacionalidade e os seus elementos como importante participação no mercado.


MISS BRASIL 2000


Com a evolução de lojas em ruas que se tornaram roteiro de alto luxo e a chegada da Casa Cor SP, realizada em 1987 na capital paulistana, o Brasil adentra a contemporaneidade da identidade nacional trazendo nomes que se destacaram na instauração de uma verdadeira “moda casa”.


Leo Shehtman, Debora Aguiar, Roberto Migotto, Arthur Casas, Dado Castello Branco, João Armentano, dentre inúmeros talentos, remodelam a maneira de morar do brasileiro com novos conceitos e uma real aproximação como que hoje chamamos de brasilidade – texturas e cores originalmente produzidas por nossos artesãos começam a ser valorizadas, artistas e modelos de arquitetura nacional entram em voga com elementos como o sapê, o barro e a palha indígena. Quem não viu os nossos belos cocares e telas coloridas ornamentarem as casas modernas de alto padrão!?


Decór cheia de brasilidade no projeto de Sidney Quintela / Foto: Victor Affaro


Ao mesmo tempo, nomes fortes da movelaria nacional passam a assinar a maioria dos catálogos e alguns ganham projeção internacional, sendo premiados nos maiores salões de design do mundo – Pedro Mendes, Teo Egami, Luan Del Savio, Daniela Ferro, Zanine de Zanini e Fernando Jaeger são alguns representantes deste vasto time.


Poltrona - Studio Zanini


As nossas pedras, minérios, quartzos, esmeraldas, ametistas, as nossas madeiras, plumas, artesanato em geral adentram com força total o Decor de grandes redes de hotéis e resorts como o Fasano, o Unique, Grand Hyatt, Sheraton e o Mofarej.


Interiores do Fasano


Nos anos 2000 o clima e a geografia são o foco de um futuro imediato, a Amazônia e o Pantanal se tornam as estrelas máximas do paisagismo mundial e invadem a decoração de jardins e piscinas com as suas vegetações exuberantes e plantas ornamentícias – o ambicioso projeto Cidade Matarazzo, em São Paulo, promete recriar estas selvas e oferecer luxo e esplendor brasileiros para um público cada vez mais exigente e de alto padrão. As coleções mais recentes da Guy Masurrel (grife holandesa de papel de parede) chegam ao mercado tomadas pelas estampas de nossos animais nos Animal Print e nas vegetações da Mata Atlântica.



EAD HOME & BRASILIDADE


A curadoria da EAD HOME, desde de sempre, busca incorporar elementos de brasilidade através de sua curadoria – tanto no showroom localizado em Sorocaba quanto na composição de ambientes e móveis para os seus clientes.

Há quase 10 anos, adotamos o COBOGÓ (elemento autenticamente brasileiro criado no recife por Amadeu Coimbra, Ernestr Boeckman e Antônio de Góes) na fachada da loja e apresentamos coleções assinadas por moveleiros e artesãos nacionais. Tornamos a identidade da loja e sua essência em uma vanguarda para destacar a brasilidade em diversos elementos de design realizado em nosso país.

Nunca foi tão divertido ser brasileiro quando se fala em decoração, paisagismo e arquitetura e nunca foi tão chique ter a Casa Brasileira repleta de brasilidade!




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