Viva Bauhaus!

Por Rock Zanella


Como refletir os 101 anos da escola de BAUHAUS sem remetermo-nos aos grandes ícones do

imaginário coletivo!?


Tal como marcas globais facilmente reconhecidas em qualquer parte do planeta – dentre elas McDonalds, Coca Cola, Ferrari, Chanel, Montblanc, Cartier e outras, a primeira Instituição de Artes e Design do mundo alcançou o seu centenário tornando-se invicta e eterna. Reconhecida pelo seu nome em qualquer continente civilizado, Bauhaus é tão mítica quanto o Mickey de Walt Disney e tão viva quanto Carlitos de Charles Chaplin, tamanha a sua importância e impacto cultural no planeta.


Prédio da Bauhaus em Weimar


Fundada pelo arquiteto Walter Gropius em 21 de março de 1919, na cidade de Weimar, logo após a I Guerra Mundial, ela surgiu junto a uma das maiores crises econômicas e sociais da história. Reunindo grandes artistas e técnicos de sua época, ela transcendeu todos os padrões do classicismo vigorante do século XIX e tornou-se uma Ideia avançada de futuro e um modo de pensar o mundo absolutamente únicos e referenciais. Tornou-se mais que um legado do maior centro de desenvolvimento técnico e artístico europeu, simplesmente revolucionando para sempre a maneira de morar, viver e construir.


Walter Gropius


Junto da recém-iniciada Era Industrial que encantava o homem ocidental no raiar do século XX, ela viveria os mais curtos e intensos quatorze anos da história e atravessaria os seus cem anos impactando todas as gerações vindouras com uma trajetória monstruosa e de legado único de grandes gênios da arquitetura, artes plásticas e artesanato. Bauhaus é hoje uma Senhora Iconoclasta!



MODERNISMO X NAZISMO


Na Alemanha do início do século XX não era vantagem ser de Vanguarda e/ou Modernista – estilo de arte e arquitetura que surgia então e viria a tomar o mundo dentre os jovens artistas e pensadores de todo os continentes.


Artistas, arquitetos, urbanistas, engenheiros, artesãos, escultores, cientistas e designers que formavam a primeira turma da então recém-criada Escola teriam a grande responsabilidade de transformar os conceitos pré-estabelecidos, dentre eles nomes icônicos como os pintores Paul Klee e Wassily Kandinsky, os arquitetos Mies Van Der Rohe, Le Corbusier, Frank Lloyd Wright, George Nelson, Eillen Gray, entre tantos outros. Todos teriam a nobre missão de ampliar a visão das artes e educação na formação de uma nova era que viria a aproximar a arte da produção industrial com métodos criativos e conceito educacional pluralista.



Pintura de Wassily Kandinsky


Surge aí o Estilo Clássico Moderno que atravessaria o século seguinte de forma única a revolucionar o Design Moderno na construção de linhas e formas simplificadas – definidas pela forma e função do objeto com um visual “clean” e “minimalista”. O seu modernismo avançaria também sobre a arquitetura e urbanismo quando, perseguida pelo sistema nazista que prezava pelo estilo Neoclássico e se opunha à sua orientação política, ela teve a sua sede transferida em 1925 para a cidade de Dessau, que possuía um governo de esquerda.



Cadeira Wassily, ícone do design moderno


Gropius projeta então um novo prédio para abrigar a escola. Este edifício continha muitas características que mais tarde se tornaram marcos da arquitetura modernista, incluindo a construção de estrutura de aço, uma parede de cortina de vidro (nossas atuais fachadas de vidro), e, um plano assimétrico em formato de cata-vento no qual Gropius alocou estúdios, sala de aula e espaço administrativo para máxima eficiência e lógica espacial.



Prédio da Bauhaus em Dessau


Frequentada por muitos intelectuais e artistas russos que trabalhavam e estudavam ali, a escola foi considerada uma “frente comunista”. Escritores nazistas como Wilhelm Frick e Alfred Rosenberg clamavam diretamente que a escola era "anti-Germânica," e desaprovavam o seu estilo modernista. Uma nova mudança ocorre em 1932, para Berlim, com o lendário Mies Van Der Rohe na sua direção, porém devido à perseguição do recém-implantado Governo Nazista e em 1933, após uma série de perseguições por parte do governo alemão, a Bauhaus é finalmente fechada.


Bauhaus Berlin



FEMINISMO EM BAUHAUS


Não era vantagem ser modernista e também não era fácil ser mulher quando surgiu a então escola de Bauhaus logo após a Primeira Guerra Mundial, com todos os seus reflexos na sociedade.


Pela primeira vez na história, a mulher avançava na frente de trabalho de fábricas, mercados e indústrias para compensar a perda dos seus maridos e companheiros que não retornavam mais para as suas casas. As baixas do front obrigaram as moças a cuidar de suas famílias e produzir o seu sustento com salários irrisórios e pesadas cargas de trabalho. Mas, ainda assim, o mundo continuaria a ser dos homens por longos anos.

Bauhaus entra para a história como sinônimo de igualdade de sexos onde algumas mulheres fizeram carreiras excepcionais e outras tiveram destinos dramáticos. Mas fato é que as mulheres em Bauhaus entraram definitivamente em ação. Elas representaram um terço de todo o quadro de estudantes nos cursos de Arte, Design e Arquitetura. Gropius, seu fundador, prometera a igualdade de tratamento de homens e mulheres. Algumas delas conseguiram se estabelecer na arquitetura e no design – na época essas disciplinas eram domínios dos homens –, fazendo uma carreira memorável.


Não aprendemos nada. O que fizemos foi solidificar nosso caráter”, comenta a arquiteta Katt Both sobre seu tempo de estudo na Bauhaus de Dessau. Ela teve na escola a sua entrada na vida profissional. Depois de ter estudado em Dessau, ela trabalhou no escritório de arquitetura dos irmãos Luckhardt, em Berlim, sendo finalmente, em março de 1929, contratada por Otto Haesler, de Celle. A primeira arquiteta! Ela participou de todos os grandes projetos arquitetônicos desse escritório.



Katt Both


A artista e designer de metal Marianne Brandt, por exemplo, que quando ainda era estudante já projetara em 1924 bules de extrato de chá, feitos de latão e ébano – um dos ícones da Bauhaus –, assumiu em 1928 a direção da oficina metalúrgica. Juntamente com Hin Bredendieck, ela projetou objetos de iluminação para a produção em série e organizou a cooperação com firmas, trazendo proveitos para toda a Bauhaus.


Marianne Brandt


A austríaca Friedl Dicker-Brandeis, que seguiu Johannes Itten, mestre da Bauhaus, a Weimar, estudou no ramo de têxteis, da impressão e da encadernação. Em 1923, ela e Franz Singer foram diretores da “Oficina de Belas Artes”. Dicker e Singer projetaram mobiliários inovadores para apartamentos, usando móveis mutáveis e cheios de truques. Em 1942, Friedl Dicker-Brandeis foi deportada para Theresienstadt. Friedl Dicker foi assassinada em 1944 em Auschwitz.

Cartaz, por Friedl e Franz


As biografias das mulheres da Bauhaus sofreram uma profunda censura com o nazismo e com a proibição da profissão. Depois de 1945, somente poucas delas puderam continuar a carreira que tinham começado na década de 1920. Uma destas foi a arquiteta e planejadora urbana Lotte Stam-Beese, que participou no planejamento de reconstrução de Roterdã. Em 1932, ela acompanhou a brigada de arquitetos de Hannes Meyer e Ernst May a caminho da Ucrânia, ficando por lá e conhecendo o arquiteto holandês Mart Stam.

Lotte Stam-Beese fez seu diploma de Arquitetura em Amsterdã com a idade de 41 anos, começando então a sua carreira na arquitetura urbana.



BAUHAUS X HAUSBAU


Apesar do seu imenso legado e das inúmeras citações que correm desde meios acadêmicos às mesas de bar, um fato passa quase despercebido quando pensamos Bauhaus.


Bauhaus (Casa da Construção) é a inversão do termo HausBau (Construção da Casa), tendo assim a conotação de um movimento global, multifacetado e pluralista que como nenhum outro desde o início do século XX teve tamanha importância para a Arquitetura e o Design. Após a sua dissolução, a emigração de seus professores tornou-se fator decisivo na difusão e suas ideias pelo mundo todo.


Nos Estados Unidos, para onde se dirige boa parte deles — Gropius, Moholy-Nagy, Breuer, Bayer, Van der Rohe e outros — surge a Nova Bauhaus, em Chicago, 1937/1938 e o Architectes’s Collaborative — TAC, escritório de arquitetura criado por Gropius em 1945, quando era professor em Harvard. Também em Israel nas décadas seguintes – outro destino para onde se encaminharam muitos artistas exilados pelo regime nazista. A Cidade Branca de Tel Aviv, que contém um dos maiores espólios de arquitetura Bauhaus em todo o mundo, foi classificada como Património Mundial em 2003.


Prédio da The New Bauhaus, em Chicago


No Brasil, a influência de Bauhaus em cidades planejadas ajudou a construir diversos distritos considerados “modernos” em sua nova arquitetura, tendo como expoente máximo a cidade de Brasília com Oscar Niemeyer dentre os maiores precursores bauhausianos privilegiando sobretudo as formas geométricas e as cores brancas.

Croquis de Brasília, por Oscar Niemeyer


Brasília, foi projetada em 1957 sob as tendências modernas e funcionalistas inauguradas pela escola. Todo o plano-piloto, incluindo tanto os edifícios residenciais quanto as construções públicas, são exemplos e ícones desta arte, em sua excelência. Em prédios como o da Escola Superior de Desenho Industrial, no Rio de Janeiro, do Instituto de Arte Contemporânea de SP e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, da USP há referências claras à escola.


Prédio da FAU-USP


O uso de metais retorcidos em móveis e o simplismo das formas povoam desde objetos de decoração e utensílios domésticos até desenhos de avenidas e postes de iluminação com influência de Bauhaus. A escola introduziu ainda o uso de novos materiais pré-fabricados, a simplificação dos volumes, geometrização das formas e predomínio de linhas retas, em tudo que era produzido.


Móveis no estilo Bauhaus

Cadeira Barcelona, um ícone da Bauhaus desenhado por Mies Van Der Rohe


Especificamente na arquitetura, a Bauhaus ficou conhecida pelas paredes lisas e, geralmente, brancas, abolindo a decoração. Isso para as paredes que “sobreviveram”, já que outra marca da escola foi a abolição das paredes internas (como nos lofts), somadas a amplas janelas e fachadas de vidro. Nem os telhados resistiram às inovações da Bauhaus, que popularizou as coberturas planas, transformadas em terraços. 


Mas você não precisa ir tão longe para encontrar influências de Bauhaus em sua vida – o design clean e arrojado que estão no seu computador e em toda linha da Apple, ou se você tiver um iPhone na palma da sua mão ou mesmo se ouvir o som da banda Franz Ferdinand ou ver a capa do CD duplo HONK dos Rolling Stone vai perceber a lendária escola como principal influência para tudo quanto é identidade visual destas bandas e produtos. 



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